sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Memórias ferroviárias



A ferrovia foi o marco histórico em todo o Estado de São Paulo e principalmente em Bauru. Notamos, porém, que pouco se fala da ex-Companhia Paulista de Estrada de Ferro, a única com serviços prestados de primeiro mundo, pois na década de 60 e 70, embora não se tivesse tanta tecnologia, um trem fazia em 6 horas de Bauru a São Paulo com 20 paradas nas principais estações. Em determinados trechos chegava a correr 120 km/h.

Uma empresa moldada em padrões ingleses, que não aceitava erros, atrasos nos horários de partida e chegada, seriedade nas limpezas, no comportamento dos funcionários, apuração na cobrança dos acidentes quando ocorridos, exigindo rapidez. Existia rigidez quanto aos horários, tanto dos trens de cargas e principalmente dos trens de passageiros.

Um trem de passageiros corria com 12 carros (vagões de passageiros) sendo: um breque que carregava malotes até 40 toneladas, cinco carros de segunda classe (pessoas de menor poder aquisitivo), um restaurante bem equipado onde mesmo em alta velocidade um copo não se mexia nas trinta mesas existentes, quatro carros de primeira classe com poltronas reclináveis individuais e passadeiras vermelhas no corredor, e por último o carro pullman classe executiva com poltronas individuais e giratórias, este trem conduzido por uma locomotiva GE 1945, um número aproximado de 800 pessoas sentadas nas poltronas numeradas. Quatro trens partiam e quatro chegavam a Bauru dando intercâmbio com a EF Noroeste do Brasil.

A Companhia Paulista de Estrada de Ferro era dividida em regionais que por sua vez eram formadas de vários setores, como: transportes, tração, via permanente, comercial, elétrico, administração, obras, informática e tantos outros sub-setores. Todos tinham um engenheiro encarregado que por sua vez eram comandados por um engenheiro residente de pulso firme e de ótimo conhecimento ferroviário chamado superintendente.

Cada setor obedecia rigorosamente uma hierarquia, assim sendo um trabalhador braçal poderia se aposentar como chefe de setor onde ele trabalhasse logicamente fazendo os cursos internos e recebendo as notas exigidas pelo seu desempenho no trabalho. Notas estas dadas pelo seu chefe imediato todos os meses. Para ser um maquinista de passageiros demorava-se quase 15 anos passando por exames teóricos e práticos.

O ferroviário nato tinha amor pela empresa, embora não se ganhasse muito, existia compreensão e dedicação no que se fazia, pois com esforço chegaríamos ao topo da carreira escolhida. Assim vários aparelhos e ferramentas foram criados por humildes ferroviários.

Transportávamos na década de 60, 70 e 80, soja, trigo, álcool, gasolina, arroz, pequenas expedições, madeiras, óleo comestível, tijolos, animais, auto trem etc., fazíamos intercâmbio de cargas com a EF Noroeste e ainda os trens de passageiros. Tínhamos o maior parque florestal do Estado em cidades como Rio Claro, Brasília Paulista e outros lugares.

Trabalhávamos com três tipos de comando de circulação: o Staff, aparelho de comunicação entre as estações e eram comandadas pelo setor do Movimento; o Bloqueio Automático, sistema de sinalização entre as estações exemplo de Triagem Paulista para Bauru, e, o mais moderno para a época, o CTC (Controle de Tráfico Centralizado) onde o despachador, pessoa responsável pela circulação dos trens no setor do Movimento fazia os sinais através de uma máquina seletora, comandando de Bauru a Itirapina ou Araraquara a Itirapina e de Itirapina a Jundiaí. Havia comandos em Bauru, Araraquara, Campinas, e em São Paulo um centro de controle geral da circulação ferroviária.

Mas em 1976 houve a junção das cinco ferrovias: Cia. Paulista EF, EF Sorocabana, EF Mogiana, EF Araraquarense e EF São Paulo-Minas, formando a Ferrovias Paulista SA.

Os trens passaram a atrasar, pessoas que não conheciam ferrovias começaram a mandar, a seleção era feita por apadrinhamento e nos principais setores da empresa houveram faltas de elementos e materiais. A adequação era feita mandando dez funcionários trabalhadores braçais e ajustava um para o serviço burocrático com salário maior.

Assim a via permanente se deteriorou e os trens passaram a correr menos. Em quase todos os setores aconteceram esse movimento. Hoje vemos tudo sucateado, não existem mais cargos como antigamente.
O nosso governo privatizou a empresa mas não manteve os padrões de qualidade que a mesma oferecia aos usuários.

Hoje tudo que a ferrovia construiu em cem anos está entregue à iniciativa privada e sendo vendido, e os ferroviários sendo tratados como pessoas que nada fizemos pelo nosso Estado. Será que as transportadoras rodoviárias estão tristes e o nosso governo não está contente com o pedágio que recebe? E vocês acham que a ferrovia voltará a ser o que era? Nunca.

Elcio José Machado - assistente de movimento ferroviário aposentado

Publicado originalmente no Jornal da Cidade de Bauru e região em 22/10/2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Encontro ferroviário em Bauru - SP

Aqui em Bauru, aconteceu o 2o. Encontro Ferroviário e de Ferro Modelismo neste sábado e no domingo, dias 17 e 18 de outubro, e o prefeito prefeito e a câmara municipal assinaram o compromisso de compra do prédio da Estação ferroviária de Bauru, NOB e Paulista. Uma boa notícia, pois finalmente o prédio poderá ser restaurado.

Durante o evento, meu amigo violeiro LEVI RAMIRO lançou seu novo CD inspirado na colonização da região e, claro, nas ferrovias. Belas fotos, belas músicas, compostas e executadas pelo Levi com maestria.

Seguem as fotos que ilustram a capa e contra capa do CD e que fazem parte do encarte e fizeram parte de exposição que acompanhou o lançamento:


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O trem no Brasil...e na minha memória (2)


por Eduardo Chaves


30 de Janeiro de 2008

Ainda sobre o trem no Brasil

Recebi, a propósito de um artigo sobre "O Trem no Brasil", em meu Space, que transcrevo abaixo, mas que pode ser encontrada aqui uma mensagem de um leitor chamado Serginho, de São Paulo, que tem 43 anos e que fez, quando criança, viagens de trem entre São Paulo e Maringá. Ele tem algumas dúvidas, que gostaria de esclarecer, para poder contar aos filhos sobre a experiência gostosa que era viajar de trem por longas distâncias aqui no Brasil de alguns anos atrás.

Especificamente, ele pergunta:

1) Qual o tipo de trem que fazia esta viagem (São Paulo - Maringá)? (Por exemplo, modelo, cores dos vagões, máquina, etc.)

2) Qual o caminho percorrido? (Por exemplo, cidades onde passava e parava - sei que passava em Ourinhos)

3) Com relação ao modelo do trem pergunto porque viajei muito para o interior de São Paulo (Oswaldo Cruz) e os trens eram da Companhia Paulista/Fepasa e eram nas cores azul e creme, as máquinas eram na maioria das vezes vermelhas ou na cor azul. Partimos sempre da estação da Luz, acho que por volta das 23:00 horas.

Dei uma resposta individual a ele, mas já descobri que está incompleta. Aqui transcrevo a resposta, com os acréscimos de que me lembrei depois de enviá-la.

Caro Sérgio:

O de que realmente me lembro, no tocante à viagem de São Paulo para o Paraná, é o que disse na mensagem a que você se refere:

"As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã.

O trem era lindo -- verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos.

Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas... "

O trem e a linha, neste caso, eram da Estrada de Ferro Sorocabana, não da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Os vagões do trem eram de ferro (ou algo que se lhe assemelhasse), não de madeira, e tinham a cor verda escura, que explica o nome nome do trem: "Expresso Ouro Verde". O trajeto do Expresso Ouro Verde era entre São Paulo (Estação Sorocabana, nome oficial
Júlio Prestes) e Ourinhos.

Ele saía da Sorocabana seguindo o trajeto da linha da Sorocabana, que era o mesmo trajeto da linha de trem metropolitano que, hoje, saindo da Júlio Prestes, passa por Barra Funda, Lapa, Domingos de Moraes, Presidente Altino, etc. Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi, etc. (não me lembro se a ordem das estações é bem essa). Depois de Itapevi passava por várias estações, como Sorocaba, e acabava em Ourinhos. A linha da Sorocabana seguia mais ou menos o trajeto da Rodovia Raposo Tavares.

Tanto quanto eu saiba, o Expresso Ouro Verde terminava seu trajeto em Ourinhos. A linha da Sorocabana, e outros trens da Sorocabana, iam até Presidente Prudente - creio que até Presidente Epitácio, na divisa com Mato Grosso. Já fui nesse trem até a divisa, no início nos anos 60. Na divisa havia um ramal que ia para o Norte, ligando com outras cidades. Não sei se
chegava a Dracena, encontrando a linha da Paulista.

De Ourinhos para frente -- quando eu era criança, na década de 40, o trem só ia até Apucarana, se bem me lembro: quando eu fazia esse trajeto Maringá era uma cidadezinha minúscula, morei lá de 1947 até 1951) -a gente baldeava para um trem bem mais vagabundo da Rede de Viação Paraná - Santa Catarina, que também tinha linha de Ourinhos para Curitiba e, acredito, dado o nome, para Florianópolis.

O trem que ia de São Paulo até Oswaldo Cruz, passando por Bauru, Marília, etc. era o da Paulista, que saía da Estação da Luz. Fiz algumas vezes esse trajeto, quando era nenê, porque nasci em Lucélia, do lado de Oswaldo Cruz.

Na verdade, o trajeto entre São Paulo e Oswaldo Cruz (indo, se não me engano, até Dracena) era feito, entre São Paulo e Jundiaí, pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, que tinha locomotivas vermelhas (elétricas ou a diesel).

A partir de Jundiaí começava a linha da Paulista, que ia, como disse, até Dracena (acredito). As locomotivas da Paulista, também elétricas ou a diesel, eram azuis. Por isso sua lembrança quanto à cor das locomotivas está absolutamente correta. O comboio trocava de locomotiva em Jundiaí -onde parava por cerca de 15 minutos.

Creio que, a partir da linha da Paulista em Bauru, saía uma nova linha, chamada Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ia, se bem me lembro, até Pindorama ou Panorama, não me lembro.

A partir da linha da Paulista em Rio Claro, se não me engano, também saía a linha da Estrada de Ferro Araraquarense, que ia seguindo mais ou menos o trajeto da Rodovia Washington Luiz de hoje, passando por Araraquara, São José do Rio Preto, Fernandópolis, e indo não sei até onde.

Acho difícil que se fosse de São Paulo para Maringá de trem pela Paulista, via Bauru - a menos que se desse uma volta grande (porque acredito que deveria haver um ramal qualquer que ligasse Bauru a Ourinhos, no sentido Norte-Sul).

De Campinas saía uma linha, chamada Estrada de Ferro Mogiana, que ia para Jaguariuna, Mogi-Mirim, Mogi Guaçu, passava por Água da Prata e ia pra Minas, via Poços de Caldas, Borda da Mata, etc. Andei muito nesse trem, também, indo tanto para Poços como para Borda da Mata. Em parte dessa linha, entre Campinas e Jaguariuna, circula até hoje um trem turístico, adorado
pelas crianças, puxado por uma Maria Fumaça. Meus netos menores (Gabriela, Marcelo e Felipe, junto com a Maria Luiza, neta postiça) fizeram a viagem há pouco tempo e adoraram.

Também de Campinas, ou de Sorocaba, talvez, saía uma outra linha, chamada Ituana, que ia para Indaiatuba, Elias Fausto, Salto e Itu, etc. (se o ponto de origem fosse Sorocaba, como é mais provável, a ordem das estações se inverte). Conheço bem as estações ferroviárias dessas cidades porque tenho um sítio em Salto e circulo bastante por essas quatro cidades. Ainda há pouco passei por Cardeal, um bairro "rururbano" de Elias Fausto (fica entre Indaiatuba e Elias Fausto) e vi a estação ferroviária do lugarejo.

Em São Paulo, 29 de Janeiro de 2008

Crônica originalmente publicada aqui

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Os demônios da garôa e os trens

Trem das 11, famosa música de Adoniran Barbosa, além de ser uma bela crônica da vida dos paulistanos moradores dos subúrbios, é uma bela homenagem ao trem que ocupa papel central na vida do personagem da letra.

Os demõnios da garoa, principais intérpretes da música de Adoniran gravaram dos discos cujas capas são ilustradas com imagens de trens: uma em um LP de 1965, que leva o título de TREM DAS 11:


O outro já um CD de 2009, DEMÔNIOS DA GARÔA E CONVIDADOS, estampa uma bela foto da Estação da Luz: Fica aqui minha gratidão à Adoniran Barbosa e aos Demônios da Garôa pela grande contribuição para preservar a memória dos trens no Brasil.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O trem no Brasil...e na minha memória.

por Eduardo Chaves
2 de Agosto de 2006

O trem no Brasil

Fazia tempo que vinha procurando sites sobre a história
do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha
vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem
de trem.

Nasci em 7/9/1943, em Lucélia, na chamada Alta Paulista.
Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros
dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de
trem, nos dias 19-20/10/1943:

"No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã.
O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o
tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava.
Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos
o trem.

A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio!

Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe,
pois não pudemos
arranjar lugar na 1ª classe, devido ao
grande número de pessoas.

Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu
trabalho,
pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da
manhã chegamos
a Campinas."

Como se vê, em Outubro de 1943 a linha da Paulista parece
que chegava apenas até Tupã - não indo até Oswaldo Cruz,
Lucélia, Adamantina, Dracena.

Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de
residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha
avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz
um mês, aos 85 anos - minha mãe faz 82 agora segunda-feira).

Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná,
depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para
Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo
André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda
residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem.

As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram
entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso
(e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São
Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de
manhã. O trem era lindo -- verde, naturalmente.

Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão
(mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de
cima, com meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha
mãe.

Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe
levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com
queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre
associada com sanduíches de presunto e queijo e com
Romeus-e-Julietas...

Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou.
Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos
o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior.

Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e
uma locomotiva da Companhia Paulista de Estradas de Ferro
assumia - linda, linda, azul... - e o trem passava a ser conduzido
por empregados da Paulista.

Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da
estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo,
entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo
também: Jundiaí é terra de uva e figo.

Campinas era um importante entrocamento ferroviário.
Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade,
começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia
um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas
diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Sorocaba,
passando por Itu.

Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação -- devidamente
abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na
semana passada e vi fotos da estação. A estação de Itu está bem
mais conservada, mas tornou-se um Centrl Cultural, se não me
engano.

De Santo André também íamos a Santos de trem.
A cidade principal no trajeto de São Paulo para Santos era
Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina,
na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente
puxado para subir a serra. Emocionante.

Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso
enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser
identificados e punidos os criminosos, post mortem,
se necessário.

Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis,
SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente
"Lucélia - Terra Natal", neste space), encontrei o site
Estações Ferroviárias.

Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua
cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site
Memória do Trem, que, por sua vez, tem vários links
relacionados.

Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me
lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales),
de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias.
O pai dele foi ferroviário.

Vamos ajudar a preservar a memória do trem...

Em Salto, 2 de agosto de 2006

Crônica originalmente publicada no Blog de Eduardo Chaves


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Trem bom demais - CENAS


por Eduardo Sposito

CENAS


1-Eu com meu avô paterno na Estação da Luz (estava inaugurando um terno branco, calça curta e paletó) em viagem para Santa Cruz das Palmeiras. Devia ter 7 ou 8 anos, 1952 ou 1953. Senti “alguém” bater no meu ombro: volto-me e não vejo ninguém. Como o peso continuasse, descobri a cagada de pomba, que tinha sido certeira no meu paletó branco, carimbado na estréia.

2-Deve ter sido o Reveillon de 60 ou 61: eu na praça da matriz em Santa Cruz das Palmeiras, esperando a meia noite, coçando as nádegas e a parte traseira das coxas: segundo o farmacêutico, uma reação alérgica ao detergente usado para limpar os bancos de madeira dos vagões da 2ª Classe, na viagem de trem que acabara de fazer. Lembro de ter escrito no meu diário: “Entrei o ano novo me coçando...”

3-A melhor viagem, em 65 ou 66, São Paulo/Bauru, viajando de “Pullman”(poltronas individuais reclináveis) com mais três colegas de seminário. Aliás... passamos a viagem na plataforma ou no restaurante.

4-A ÚLTIMA VIAGEM: com saudades disso tudo, agora em dezembro de 80, fiz a última viagem de trem do interior: São José do Rio Preto-São Paulo – trem superlotado, famílias inteiras sentadas em malas no corredor, cheiro de urina e 12 horas de viagem (de carro se fazia em 5) com direito a duas horas parados entre Jundiaí e São Paulo. Um triste adeus.

A música Último trem de Milton Nascimento narra de forma poética esse sentimento de perda que povoa nossas memórias ferroviárias.


Último trem

Milton Nascimento e Fernando Brant

Chora ó meu povo, chora meu maquinista
quem leva os trilhos mata um pouco a sua vida
pois o fim da linha é um pulo no vazio

Apaga a brasa. Vem prá casa meu foguista
esquece a lenha, a caldeira e a fumaça
que a estrada é morta, por ela nada mais passa

Nunca mais, menino, nunca mais meu povo aflito
nunca mais a gente vai ouvir o seu apito
nunca mais a gente vai sentir o seu gemido

Chora ó meu povo, que esse trem não deixa rastro
os trilhos arranca dos lugares onde passa
prá onde vai leva nossa linha

O trem derradeiro é carretel que faz novelo
os trilhos recolhe para nosso desespero
o último trem
faz chorar o povo
leva nossa linha
muda nossa vida
leva a alegria

Veja aqui vídeo com coreografia do Grupo Corpo com o instrumental de Último trem.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Trem bom demais - Segunda parada


por Eduardo Sposito


Segunda Parada:

Estação Mandaqui:

Anos 50. O acesso à periferia era feito pelos trens de subúrbio, partindo da Estação Areal, com várias linhas. Tive contato com duas delas: a do Horto/Tremembé/Cantareira que passava pelo Mandaqui, onde morei na década de 50: e a de Jaçanã/Gopouva, imortalizada pelo Adoniran, que passava próximo ao seminário onde estudei de 57 a 66.

Acho que me lembro das estações da Linha da Cantareira: Ponte Pequena(?), Santana, Santa Terezinha, Lauzane(?), Mandaqui, Invernada, Quarta Parada, Horto Florestal, Tremembé, Cantareira.

IMAGENS:

- As camisas furadas pela fagulhas que entravam pela janela da “Maria Fumaça”

- O Picoteador furando os bilhetes e o pessoal que não queria pagar fugindo, se escondendo e pulando do trem quando ele reduzia a velocidade na rua Dr.Cesar para entrar na Estação Santana. Em 55 cursava Admissão em Santana e sempre ia de trem, sozinho, aos dez anos... bons tempos!

- “Esses moleques não têm jeito!” – foi a frase que ouvi de uma senhora sentada à janela do trem que estávamos “chocando”, quando eu quase caí embaixo das rodas.

Tinha havido um descarrilamento a 500 metros da estação do Mandaqui e, para a linha continuar funcionando, o trem saía da estação e parava próximo ao acidente, trocando de passageiros com o trem que vinha da Invernada. Aí a molecada se dependurava nos estribos e curtia a viagem de graça.

- Da linha do Jaçanã me lembro que nós íamos jogar futebol num campo em Gopouva-Guarulhos. O campo ficava num buraco, cercado de um barranco por onde o trem passava dando a volta pelo campo. Me lembro que a gente parava o jogo para ver o trem passar lá em cima, tão bonito era.


- “E além disso, mulher...” Ainda tenho nos ouvidos o apito prolongado da última viagem do “Trem das Onze”: veio apitando a viagem toda. Foi muito triste.