segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Trens: sofrimento em expansão

Publicado originalmente no blog dos correspondentes comunitários da Grande São Paulo
http://mural.folha.blog.uol.com.br/

21/01/2011


Trens: sofrimento em expansão

Por Leandro Machado*

O meu maior defeito é ser otimista. Ao acordar, tenho sempre a sensação de que, hoje, finalmente a vida será plena: o pão vai estar quentinho, o chuveiro não queimará, os buracos do meu tênis serão tapados por milagre e, chegando na estação Guaianases, conseguirei embarcar no trem com segurança, no horário certo e sem levar duas ou três cotoveladas no queixo.

Infelizmente, os desejos mais complicados são justamente aqueles que dependem da ação do homem. É mais fácil Deus olhar pelas fendas do meu tênis que alguém se sentir confortável no Expresso Leste da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), por exemplo.

Na entrada da estação Guaianases, enfrento a primeira batalha do dia: uma enorme fila para chegar às catracas. São centenas de pessoas dividindo o espaço e a frustração. “Se bosta valesse alguma coisa, pobre nascia sem bunda”, diz uma senhora, nervosa. Dez minutos depois, consigo passar meu bilhete único na catraca.

                                                            Ilustração: Daniela Araujo


Chego à plataforma, que está lotada. É um mundo de gente se espremendo para ir ao trabalho, à escola, ao hospital... É a nova classe C, tão famosa, que agora estuda, arruma emprego, compra celular, mas usa um transporte público digno de navio negreiro. Ali, na multidão, a vida é um pouco mais dura do que os comerciais do governo.

O trem entra e a expectativa cresce: será que hoje vou sentado? Há seis meses não realizo essa proeza. Conseguir um banco no Expresso Leste é uma luta a ser ganha com empurrões, cotoveladas e má educação. Se não me sentar, vou dividir um metro quadrado com outras 8,4 pessoas, segundo dados da própria CPTM.

Não consegui, mais uma vez. Ficarei em pé, com os braços imóveis, as pernas dormentes e o suor escorrendo pelo rosto. “Gente, não pisem na minha marmita, porque hoje tem ovo”, grita o meu vizinho de metro. Todos riem. O bom-humor das pessoas é um alívio nessas horas: tem gente que não chora nem com o chicote nas costas.

Pelo alto-falante, o condutor avisa que a viagem vai durar 34 minutos. No horário de pico, esse tempo dificilmente é respeitado. Os trens param constantemente, esperando a movimentação da composição à frente, ou ficam nas estações, aguardando o difícil fechamento das portas.

Na metade do caminho, paramos. Ficamos apreensivos, pois é normal o trem quebrar numa hora dessas. Além do desconforto, o Expresso Leste não é confiável: quebra duas ou três vezes por semana. E se isso acontecer agora, meu amigo, o plano de emergência da CPTM não vai funcionar, como sempre. Teremos de descer e caminhar pela via férrea até a estação mais próxima, que pode estar a uns 10 quilômetros. O transporte público de São Paulo tem dessas coisas: às vezes, ele te proporciona aventuras inesperadas.

Por sorte, nada aconteceu. Cinco minutos depois, o trem voltou a funcionar. Não sinto os braços, os pés doem e o suor está molhando meus vizinhos. Finalmente, depois de muita luta, chegamos à estação Luz, 10 minutos acima do tempo estipulado pelo condutor. É um alívio, mas já me sinto cansado às 7h da manhã.

Agora é enfrentar o metrô.



*Leandro Machado, 21, é correspondente comunitário de Ferraz de Vasconcelos.

@machadoleandro

lmachado.mural@gmail.com

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