sexta-feira, 3 de julho de 2009

O trem pagador e outras histórias


Este post foi anteriormente publicado no blog Arquivo 68. Republico aqui pois ele dá sequência ao relato O trem pagador.

Antonio Morales

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Comecei a contar sobre o trem pagador, que na década de 60, percorria os ramais da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. E como o pagamento dos ferroviários era feito diretamente no guichê do vagão estacionado em um desvio da esplanada de manobras.

A chegada do trem pagador era sempre motivo de festa e alegria pois ele trazia o esperado envelope recheado de notas, isso mesmo, dinheiro vivo, com o salário do mês dos empregados da ferrovia.

E essa alegria contagiava também as crianças, pois sempre havia a esperança de que os pais gastassem algum em guloseimas, um brinquedinho ou um gibi. O que, de fato, muitas vezes acontecia, para nossa felicidade.

Eu particularmente adorava os gibis, mas isso é uma outra história que conto em outra ocasião.

Minha alegria porém era dobrada ou quadruplicada pois meu pai era o chefe do trem pagador e volta e meia me levava junto para uma pequena viagem no trem pagador, com direito a pouso e passeio nas cidades onde o trem pernoitava.

Para um menino do interior era uma tremenda aventura, que começava no vagão pagador equipado com beliches para passarmos a noite, passava pelos cinemas das cidades de pousada e terminava no retorno à estação de origem.

E lá ia a locomotiva a vapor resfolegando pelos campos cortados pelos trilhos da ferrovia puxando um único vagão no estilo da série de TV James West, da qual muitos devem se lembrar! Muitos detalhes dessas viagens que fiz se perderam nas brumas da memória, como costumam dizer os escritores.

Mas, menino ainda, assisti a decadência das ferrovias no Brasil na década de 60, materializada na extinção dos ramais onde MEU trem pagador circulava.

Os ramais de São Carlos-SP a Novo Horizonte-SP, de Trabiju-SP a Bariri-SP e Trabiju-SP a Dourado antiga Estrada de Ferro Douradense foram extintos e os trilhos arrancados para tristeza de nossos pais ferroviários e seus filhos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O trem pagador

Este post foi originalmente publicado no blog Arquivo 68, mas é muito apropriado para começar as postagens neste blog pois já anuncia um começo para os relatos de memórias.
Antonio Morales

Vejam só: eu sou do tempo em que ainda existia trem pagador. Mais que isso. Eu viajei, quando era menino, no trem pagador da antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Como neto e filho de ferroviários há muitas histórias da ferrovia para contar. Vou começar com essa do trem pagador que inspirou um célebre filme brasileiro – O ASSALTO AO TREM PAGADOR.

Isso foi nos idos da década de 60, mais ou menos entre 1960 e 1964,quando eu tinha entre 11 e 15 anos.

Imaginem: o trem pagador, que era composto por um carro pagador e uma locomotiva, estacionava num desvio em cada cidade para pagar o salário mensal dos ferroviários, que recebiam em dinheiro vivo, fazendo fila no guichê do pagador para receber seus envelopes. Coisa inimaginável nos dias de hoje.

O início

Conversando com amigos sobre nossas memórias ferroviárias, percebi que muitos deles as tinham e as guardavam com muito carinho, pois na maioria dos casos eram ligadas às boas lembranças.

Boas lembranças, não só porque estavam ligadas a momentos significativos e em geral prazerosos de suas vidas, mas também porque os trens tiveram seus "anos dourados" no Brasil.

O sucateamento das ferrovias foi algo marcante e a lamentar para nós que tivemos nossas vidas ligadas à época de ouro dos trens. Mais ainda para aqueles, entre nós, que cresceram à margem dos trilhos como costumo dizer, pois membros de suas famílias foram ferroviários por muitos anos.

Durante essas conversas, amigos me estimularam e incentivaram a criação deste blog, que, espero, seja um depositário dessas memórias e histórias que merecem ser partilhadas.